sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Instalação de antena móvel


Chega um momento na vida de todo usuário de HT em que se sente falta de um rádio de verdade, com uma antena de verdade. Essa é a hora em que ele pensa em ter um rádio móvel.

Pois bem, nesse post quero passar algumas informações sobre a coisa mais importante na montagem de uma estação móvel: a antena.

Há alguns anos os engenheiros de uma um fabricante americano de acessórios para radioamadores fizeram um ensaio no qual mediram as perdas de uma antena de acordo com sua posição no carro. Esse ensaio resultou nessa figura:


Alguns radioamadores replicaram essa figura, mas sempre falando em termos de perdas em db. Embora seja o correto, não é uma informação simples. Acaba confundindo se você não é um especialista.

Assim, eu fiz um outro esquema, baseado nesse primeiro, onde eu coloco em termos percentuais qual seria o rendimento de uma antena de acordo com sua posição no veículo. Apenas para se ter uma referência.

Importante frisar que embora tenha usado o esquema acima como base,esses percentuais são baseados principalmente na minha experiência própria e assim, provavelmente contém equívocos de minha parte. Contudo, pode servir de guia para os iniciantes. Vamos lá.


Como podem ver, a posição ideal é no meio do teto. Então no desenho eu considero o rendimento 100% nessa posição. As demais posições seriam o rendimento aproximado em relação ao que a antena renderia instalada na posição ideal.


Podemos resumir o esquema acima na seguinte frase: A melhor posição para a antena é a que lhe proporcionar o melhor planto terra na maior altura possível.

Toda antena móvel precisa de um planto terra. Deve haver uma boa superfície metálica plana sob a antena. Quanto mais, melhor, mas o mínimo seria um raio de 1/4 de onda, 50cm para VHF.

Quando eu trabalhava com instalações já tive que fazer muitas gambiarras para instalar antenas em carros/caminhões de fibra. Literalmente era necessário construir um plano terra.

Um bom plano terra gera um campo de irradiação uniforme para todas as direções. A instalação de antenas nos cantos funciona, mas deforma bastante o lóbulo de irradiação.

Para instalar antenas em veículos temos quatro possibilidades:
   
    1 - furar o veículo;
    2 - usar um suporte de calha ou porta malas;
    3 - usar um suporte magnético;
    4 fazer alguma adaptação tipo faça-você-mesmo (vulgo gambiarra).

Na verdade, há outro meio também: montagens pelos vidros, mas eu nem considero isso porque na prática o custo benefício não é legal.

Mas... já repararam que os carros oficiais usam antenas nesse no centro do teto do carro? Carros oficiais não tem problema de desvalorização pela existência de um furo no teto do carro, assim a instalação da antena no teto é feita por padrão. É o melhor jeito. Nesses casos usa-se muito as antenas whip. São muito boas, com um desempenho muito bom.

Não é o nosso caso. Nem sempre podemos nos da ao luxo de furar o teto do carro ( se bem que dá uma vontade... :p ).

Por isso, quem deseja ter o melhor rendimento possível deve usar um suportes magnético, tipo esse ao lado.

 Em termos práticos, é menos conveniente que os suportes fixos (de calha ou porta malas), mas permitem um melhor rendimento das antenas móveis.

O motivo é simples: quando posicionada no meio do teto a antena tem o melhor plano terra possível. Isso faz toda diferença. 

Tenha isso em mente: a antena deve ter um plano terra! De preferência um raio mínimo de 1/4 de onda.


Importante: Só em último caso instale sobre suportes/racks, na porta traseira ou no para choque. Qualquer posição em que a antena fique ao lado do veículo vai resultar em uma grande perda de desempenho.

Quanto mais baixo pior.

E não adianta instalar uma antena 5/8 (mais comprida) de onda no para choque. O fato de a ponta da antena ficar acima do teto não significa muita coisa. Qualquer antena precisa de um bom espaço livre e de o maior plano terra possível.



Recentemente apareceu no mercado uma outra possibilidade para instalação da antena móvel. As chamadas antenas descaracterizadas. O legal desse tipo de antena é que ela aproveita a entrada de antena de rádio AM/FM. Quem, como eu, não se importa muito em ouvir rádio AM/FM no carro pode abrir mão da antena original e instalar essa outra para o VHF.

Uma outra questão interessante é a discrição. Ladrões não saberão que você possui um equipamento de rádio. A antena realmente se parece com uma antena normal de rádio AM/FM.






O único problema é que ainda são extremamente caras. Por enquanto há dois fabricantes fazendo esta antena, a Steelbras e a ARS. Atualmente custam entre R$ 200,00 e R$ 300,00.


Sobre o tamanho e ganho das antenas móveis.

Em outro post eu ensino como fazer uma antena base plano terra e também algumas coisas sobre ondas de rádio. Se quiser se aprofundar, veja o vídeo.

As antenas mais usadas VHF móvel são as de 1/4 de onda (+- 49 cm). Depois as antenas 5/8 de onda (+- 120 cm). Algumas vezes usa-se antenas de outras medidas, mas são mais raras.

Mas há vantagem em usar uma antenam mais comprida? A resposta é simples: depende.

O que muda de uma antena para outra é o ganho e o ganho de uma antena basicamente se refere ao lóbulo de propagação dessa antena.

 
 É simples. Imagine uma antena vertical de 1/4 de onda ideal como uma lâmpada que ilumina por igual para todos os lados. 




Ela só não irradia para as pontas, tanto para cima como para baixo. Isso faz com o que o lóbulo de irradiação dela se assemelhe a um biscoito.




O diagrama de irradiação seria mais ou menos assim:



Na prática esse lóbulo fica deformado, de acordo com a localização da antena.

 


O plano terra influencia muito no lóbulo de irradiação de uma antena móvel. De acordo com a posição da antena ela terá mais ganho para um ou para outro lado.






Nos esquema acima vemos o comportamento de irradiação na horizontal, mas podemos também pensar também na vertical.


Uma antena móvel sem ganho irradia para todos os lados em um ângulo vertical bem aberto.




Uma antena móvel com alto ganho tem um ângulo vertical mais fechado. Terá uma propagação mais concentrada para baixo, mais próximo da linha do horizonte.



Uma antena de 1/4 de onda tem um ângulo de irradiação vertical entre 60º e 90º.
É uma antena adequada para contatos locais e tem um rendimento satisfatório em meio a prédios ou outros obstáculos.




 Já uma antena de 5/8 de onda (3db de ganho) tem um ângulo entre 40º e 60º.

 



 Uma antena com um perfil de irradiação mais baixo é mais apropriada para contatos a longa distancia em terreno plano.

Mas para contatos locais, em meio a obstáculos seu rendimento não será tão bom quanto uma 1/4 de onda.


Quanto maior o ganho da antena, mais baixo o ângulo de irradiação.




Você deve ter percebido que, mudando a posição da antena, o ganho ou mesmo o ângulo em relação ao plano terra estaremos alterando esse lóbulo e consequentemente o desempenho do sistema todo.

Angular a antena costuma ser comum e nesse caso o resultado seria isso:




Não necessariamente isso será um problema, só é preciso que a gente se lembre deste processo.



Por último, o cabo.
Esse cabo usado em estações móveis é normalmente o RG58. É um cabo coaxial de capa preta e de 50 ohms. Tem mais ou menos 0,5 cm de diâmetro. É uma boa relação custo benefício. Não deve, entretanto, ser usado em tamanhos de mais de 10m para VHF. As perdas aumentam muito.



Existem uns outros mais finos e fáceis de passar, mas também geram mais perdas. Vai da relação custo benefício de acordo com o seu caso. A especificação desse ao lado é RG174

 



A passagem do cabo para o interior do veículo é, na minha opinião, a parte mas chata do processo de instalação de antena móvel.

 Em carros modernos isso está cada vez mais difícil.
 
Normalmente entramos com o cabo pelas portas, mas isso às vezes acaba esmagando o cabo e até danificando com o tempo.

Por isso as antenas descaracterizadas são interessantes também, pois o cabo entra pelo furo.

Cada carro é um caso. Você terá que estudar o seu. Mas não se esqueça de que o cabo coaxial não dever ser esmagado!



No mais, bons contatos, bons resgates!

É isso!









terça-feira, 10 de novembro de 2015

Como fazer uma antena base de emergência para VHF


Essa é uma antela plano terra. Simples e eficiente. Mas custa caro e não é tão portátil quanto precisamos para se transportar durante caminhadas ou voo bivaque.

Quando não temos alcance de rádio suficiente é possível usar uma antena externa acoplada ao rádio portátil de modo possamos içá-la em uma árvore ou mesmo ergue-la com o auxilio de uma vara.

Com pouco investimento você poderá fazer uma que ficará parecida com essa.


Você vai precisar


1 conector UHF fêmea de base quadrada (SO239) **OBS: o termo UHF é como ele é comumente chamado. Não tem relação com a freqüência que você vai usar.


10 metros de cabo coaxial RGC58 (pode ser o RG58 também, mas o RGC tem menos perda.

** Veja na loja de componentes se o pessoal já te vende o cabo pronto. Vai te facilitar a vida. Se não for possível, terá que instalar os dois conectores. Dá um trabalhinho, mas nada impossível.


1 conector UHF macho (PL259)




 1 conector BHC macho (se seu radio for padrão SMA, peça o conector apropriado)



5 x 50cm de fio de cobre (escolha um que possar ser dobrado para melhor caber na mochila)





Esse projeto é muito simples, barato e não requer conhecimentos aprofundados de eletrônica.

A primeira coisa é calcular o tamanho da antena. se você quiser aprender veja o vídeo, se não, use a fórmula:


Formula:            7125       = X cm
              Freqüência (mhz)


Exemplo:   7125   = 48,7 cm
               146,300


Se a frequência fosse 145,5 então o tamanho do elemento irradiante seria esse, 48,7.


A soldagem dos elementos deve ser mais ou menos assim:



O acabamento fica dependendo de sua habilidade, tempo e paciência. O tamanho das astes de baixo (o plano terra) não é tao crítico, pode ser um pouco maior que o calculado. Mas aste de cima (o irradiante) deve ter o tamanho exato.

Você pode usar terminais soldados e prendê-los com parafusos e porcas. Ou pode soldar diretamente o conector. O angulo de mais ou menos 120 graus é importante para um acoplamento perfeito. Nesse angulo a antena terá 50 ohms e assim acopla perfeitamente com a impedância do radio.

Mas em um caso de emergência talvez você não consiga por a antena retinha, com angulo perfeito. Não se preocupe. Vai funcionar.

O ideal é ter um wattímetro ou medidor de SWR para fazer o ajuste fino. Mas se fizer tudo certinho como acima demonstro, provavelmente sua antena vai funcionar bem.


 Para facilitar um possível "içamento", você pode fazer uma pequena argola na ponta do irradiante.
Obs: nesse caso, o tamanho do irradiante se mede incluindo essa argola.


Algumas ideias













segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Quanto pesa seu equipamento?

Quando escrevi sobre o kit roubada relacionei uma série de itens interessantes para se levar consigo em um dia de voo. Mas qual o peso da precaução? Não podemos nos esquecer de que temos limites quanto ao peso e ao volume das coisas que carregamos. Há algum tempo tenho procurado uma boa relação entre tudo que acho necessário carregar e o peso que estou disposto adicionar em meu equipamento. Coloco abaixo algumas reflexões baseadas em minha experiencia pessoal, portanto esse não é um artigo exaustivo. Não deixa de ser, entretanto, uma referência para quem está começando pensar nisso.


Além da questão do conforto, o peso de decolagem não deve ultrapassar os limites estabelecidos pelos fabricantes de parapentes. Voar acima desse limite (ou abaixo dele) pode significar aumento no fator de risco para o piloto. 

Pensando nessa conta fiz uma tabela com o peso de diversos itens. Inicialmente pensei apenas no kit roubada, mas depois vi que considerar todo o equipamento era mais interessante.


Selete - 4,5 Kg

Velame e selete são os fatores que mais pesam na balança. Impulsionados pelo sucesso do XAlps há algum tempo os fabricantes estão olhando com mais carinho para as versões light de equipamentos. Minha primeira ressalva: equipamentos leves não são tao resistentes quanto equipamentos padrão. Isso vale tanto para velames quanto para seletes.

Hoje boas opções de velas e seletes leves. Pessoalmente optei por voar com velas padrão pela questão da durabilidade. Como estou beirando os três dígitos, minha vela pesa cerca de 6,2 kg. 

No quesito selete, há boas opções, tanto reversíveis quanto carenadas leves. Optei pela Ozium da Ozone que me custa cerca de 2,6 kg que somados ao parapente reserva resulta em um conjunto de 4,5 Kg. Nada mal se considerar que isso é metade do peso da maioria das seletes por aí. Mas ela não tem contêiner frontal para instrumentos. No lugar dele apenas uma placa de velcro. Nele cabe exatamente o Flymaster e o rádio. Como gosto de ter algumas coisas com acesso rápido adotei um porta instrumentos padrão da Sol que me custa pouco cerca de 0,6 Kg. Tenho ainda a opção de não usá-lo e economizar esse meio quilo, mas no dia a dia tenho preferido usá-lo.

Os itens que elenquei abaixo vão desde os obrigatórios, passando pelos essenciais até os relativamente importantes. 

Separei em dois grandes grupos. O primeiro, composto por itens a serem carregados no porta instrumentos.
O segundo, composto por itens que podem ficar acondicionados na selete ou mochila.

Esses são os meus itens, talvez você tenha suas preferências pessoais ou precise considerar algumas questões regionais.


Porta instrumentos - 2,3 Kg


  * peso em gramas


Selete / Mochila - 3,2 Kg

* peso em gramas


Alguns itens saem fácil da lista. Se não for caminhar muito, por exemplo, não é necessário carregar os bastões de caminhada. Nem tampouco é essencial usar uma Gopro. Algumas vezes é interessante ter um anemômetro, mas a gente se vira sem ele... 

Outros itens, como rádio, documentos ou capacete são essenciais. 

Agora, baterias reserva, remédios, celular, antena de ganho, comida e água poderão salvar sua vida ou a de um colega no caso de um acidente. Outros como canivete ou lanterna poderão ser úteis em diversas ocasiões.

Importa ponderar tudo com bom senso.


Resumindo, agora é só decidir onde cortar. 


Outros



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Previsão do tempo - XC-Skies - Como começar



Uma das coisas que mais me impressionou quando eu tomei contato com o voo livre foi a capacidade do instrutor de dizer onde haveria boas condições de vento para o voo. Eu ficava pensando como ele conseguia saber aquilo.

Passados muitos anos, aprendi que a análise do clima é uma das principais tarefas do piloto. Isso é básico. Todo piloto deve ter a clara noção das condições climáticas e suas consequências para o seu voo.

Hoje há muitas ferramentas que nos auxiliam nessa tarefa, tantas que não seria possível elencar todas. Mas um delas parece ser consenso entre os pilotos e tem sido minha preferida. Como tenho alguns amigos que não conhecem, resolvi fazer um vídeo e apresentar o XC-Skies pra galera.

Esse vídeo serve para quem nunca usou a ferramenta, pois é bem básico e eu tento mostrar passo a passo desde o início. Também sou um simples aprendiz, mas vamos compartilhar, por que não? Talvez futuramente possa fazer uma postagem mais aprofundada.



Espero que seja útil.
Bons voos!

Cláudio

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Squelch - Evitando interferências no rádio


Escrevi esse artigo apenas para auxiliar pessoas com poucos conhecimentos sobre radiocomunicação. Portanto, uso linguagem mais simples possível e evito entrar em aspectos demasiadamente complexos. Do mesmo modo, não pretendi abordar o tema de forma exaustiva. Muito há para se discutir sobre esse tema!

Enjoy it!


Talvez você já tenha passado pela experiencia de estar em uma rampa se preparando para decolar quando seu rádio começa a chiar... Ou, pior, quando isso acontece durante o voo. 

Algumas vezes os pilotos pensam que se trata de algum rádio transmitindo acidentalmente. Isso pode até acontecer, mas geralmente esses chiados são simples interferências.


Esse é um problema moderno que afeta a todos nós em nosso dia a dia, mas nem todo mundo percebe.

Somos rodeados por um monte de coisas que provocam "poluição eletromagnética". É a chamada interferência eletromagnética, ou IEM. 

Estamos rodeados de fontes de poluição eletromagnética: computadores, motores elétricos, lâmpadas de led e fluorescentes, transformadores de energia em postes, eletrodomésticos em geral etc...

Na maioria das vezes isso fica invisível, mas já há estudos sérios analisando o impacto disso em nossa saúde e em nossa vida cotidiana. 

Praticamente tudo que depende de um sinal de rádio pode estar sujeito a uma interferência: controles remotos, modems, telefones celulares, telefones sem fio, GPS´s, rádios e televisões, por exemplo.

Em nosso caso, pilotos, montanhistas ou radioamadores em geral, percebemos interferências quando estamos nas rampas de voo, nas montanhas ou simplesmente quando usamos nossos equipamentos em determinados locais e/ou horários.

Veja abaixo. Temos um sinal principal, interferências abaixo do nível de squelch e uma interferência acima do nível de squelch. Nesse esquema, o nível de squelch é apenas uma simulação. Vemos uma situação de grande poluição de radiofrequência pois o sinal interferente é quase tão forte quanto ao sinal principal. 




Devemos ajustar o squelch dos nossos rádios para para que fique acima dos ruídos e interferências, mas abaixo do sinal principal.
Na prática, ajustamos para o mínimo possível para que o rádio fique o mais sensível possível. Veja o esquema abaixo**:

** Adaptado de <http://www.mecatronicaatual.com.br/artigos/870-rdio-interferncia>



Ajustar o squelch do seu rádio é muito simples. No vídeo abaixo eu dou algumas dicas e mostro mais algumas coisas...





Apenas como curiosidade, aqui está as formas de onda geradas pelos HT´s usados no vídeo:




Fique à vontade para complementar, postar dúvidas, comentários, críticas ou elogios.

Abraços,
Cláudio


terça-feira, 23 de junho de 2015

A contribuição dos mosquetões para elevação do índice VDM*

Mosquetões são projetados para muitas aplicações. Cada aplicação tem uma particularidade e precisa de um mosquetão adequado a ela.

*O índice VDM mede as possibilidades de um dado evento resultar em merda. 
(Vai Dar Merda)
Afinal, merdas acontecem. 

Nesse post vou propor algumas reflexões sobre os mosquetões usados em voos de parapente.




Como montanhista a questão 'mosquetão' sempre esteve mais ou menos resolvida para mim. Mas no meio do voo livre eu sempre ouvia que "há muitas coisas que podem acontecer antes de dar problema com seu mosquetão". Essa frase reflete a crença de alguns pilotos de que essa peça é super dimensiona e não sofre as mesmas exigências que em outras atividades, como aquelas decorridas de quedas em escaladas, por exemplo. Assim, está longe de dar problemas.


Contudo, já houve casos de acidentes com mosquetões, tanto pela ruptura de materiais quanto pela falha mecânica ou uso inadequado. 

 

Uma coisa muito relevante é que em caso de ruptura o desconexão de um dos mosquetões a tarefa de lançar o reserva pode ser dificultada.


Nesse vídeo dá medo só de olhar, imaginem uma turbulência mais forte:



Veja esse interessante teste de vibração mostrando que mosquetões de rosca abrem-se com relativa facilidade quando submetidos à vibração:



Mas eu comecei a dar mais atenção aos mosquetões do meu equipamento de voo depois que registrei um incidente comigo mesmo, como podem ver no vídeo abaixo:



Eu flagrei a mesma coisa durante o pouso pela checagem das gravações de vídeo. Sem risco, pois ocorria durante a corrida no chão, mas vai saber quantas vezes isso ocorreu?


Detectado o problema, eu comecei a estudar para entender como ele ocorria pois apenas trocar o mosquetão não meu ensinaria nada. Elaborei algumas hipóteses e passei a observar e registrar o comportamento do dito cujo. Para isso usei a GoPro.


Depois de três voos já foi possível compreender as causas do problema.

A primeira constatação foi de que isso ocorria na decolagem, pois eu, piloto novo, tendia a manter as mãos próximas aos tirantes logo após decolar. Isso fazia com que eu "raspasse" as costas do dedão no mosquetão e girasse a trava que liberava usa abertura.

Um mosquetão novo do mesmo tipo simplesmente fecharia novamente, mas o meu já era usado e possuía uma pequena rebarba que algumas vezes dificultava seu fechamento imediato.

Essa rebarba fazia a trava esbarrar na borda e encaixar perfeitamente, com isso mosquetão não fechava.

Um detalhe extremamente simples, mas o suficiente para eleva o índice VDM.

Sabemos que zerar esse índice é o objetivo do todo piloto consciente.




Mesmo durante as decolagens, talvez o mesmo tenha ocorrido mais vezes sem que eu percebesse.

Devemos lembrar que a resistência de um mosquetão aberto diminui para até 1/3 do seu valor nominal. Isso é expresso na maioria dos mosquetões, como se pode ver no detalhe abaixo. Nesse caso, em posição normal a resistência do mosquetão é de 18 Kn. Aberto é de apenas 6 Kn.


Portanto, o mosquetão não deve abrir em voo!

Além da possibilidade de ruptura, uma conjunção de eventos pode aumentar as chances de escape do tirante. Na foto ao lado temos ilustração uma situação delicada pela qual eu não gostaria de passar. A foto é de fonte desconhecida*** (talvez não real), mas ilustra bem a situação.
Enquanto fazia os testes pesquisei alternativas de mosquetões que me dessem mais segurança e encontrei dois modelos que me agradaram.
Um deles é este abaixo, comercializado pela Sol. Observem que a trava é dupla. para abrir você precisa puxar para cima e girar para o lado.




Outro modelo interessante é o que eu resolvi adotar. Está disponível nos site Alta Montanha.

Nesse caso, para abrir o mosquetão se faz necessário pressionar uma pequena trava abaixo da parte móvel do mosquetão. 

Quando ainda estava na escolinha eu usava esse modelo e achava ruim de abrir, pois precisa ter 'jeito'. É justamente a necessidade de 'jeito' que me faz confiar mais nessa peça hoje. 

Quando troquei de selete mantive o mesmo par de mosquetões. São os que uso até hoje e que pretendo continuar usando.


Fatores que elevam o índice VDM:
  • Comprar mosquetões usados;
  • Usar mosquetões inadequados ao tipo de uso específico;
  • Bater o mosquetão contra superfícies rígidas (pode gerar micro fissuras internas);
  • Não fazer inspeção frequente;
  • Achar que isso nunca vai dar problema.

É isso.
Bons e seguros voos!

Upadate 1

Como foi bem lembrado por amigos leitores do blog, eventualmente o fechamento automático pode ser dificultado por sujeira, detritos, areia etc... A inspeção frequente dos mosquetões deve incluir quando necessário limpeza e lubrificação. Se mantemos nossos mosquetões longe da areia e da terra é provável que raramente seja necessário lava-los. No voo livre isso é mais fácil que na escalada onde mosquetões ficam literalmente em contato com as rochas. Ainda assim, estamos sujeitos a pousar em locais de areia, alagados, arados, água...

No caso de pousar na água em situações de emergência, ou em algum SIV, faça inspeção, limpeza e lubrificação das peças. Talvez as piores situações sejam lama e água salgada. Atente para isso.

Em seu blog, o escalador Eliseu Frechou** sugere lavar mosquetões de escalada, Segundo ele, pode-se usar água quente e sabão mesmo. Após lavar deve-se secar completamente no sol e depois lubrificar as partes de encaixe móveis e mola. Para lubrificar pode-se usar óleo ou grafite. Mas atenção: óleo em excesso pode ser um problema maior, pois há chance de o excesso de óleo servir de agregador de pó e areia e também sujar a selete. Deve ser, portanto, na medida.

* Agradecimentos pela contribuição de João Marcelo Maschião
** https://eliseufrechou.wordpress.com/2013/12/04/lubrifique-os-mosquetoes-de-escalada/

Upadate 2
*** Agradecimentos ao Adriano José dos Santos pelo envio da foto.